Declaração de Kay Rala Xanana Gusmão, Primeiro-Ministro da República Democrática de Timor-Leste, sobre o falecimento de Robert Domm
Primeiro-Ministro
IX Governo Constitucional
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Comunicado de Imprensa
Declaração de Kay Rala Xanana Gusmão, Primeiro-Ministro da República Democrática de Timor-Leste, sobre o falecimento de Robert Domm
O Governo e o povo de Timor-Leste estão profundamente consternados com o falecimento de Robert Domm, cuja coragem e determinação ajudaram a dar a conhecer ao mundo a verdade sobre a nossa luta pela autodeterminação.
Em setembro de 1990, quando poucos no mundo tinham consciência da devastação em Timor-Leste ocupado, ou de que a nossa campanha de resistência continuava, apesar das terríveis perdas, Robert Domm empreendeu uma perigosa jornada ao nosso país e subiu ao Monte Bunaria para se encontrar comigo e com a liderança das FALINTIL.
Foi o primeiro jornalista estrangeiro, em quinze anos, a ter contacto direto com a Resistência. A sua entrevista comigo, transmitida pelo programa Background Briefing, da ABC, rompeu o silêncio que envolvia Timor-Leste desde 1975.
Levou ao mundo a mensagem de que a luta timorense pela autodeterminação e contra a ocupação militar estrangeira continuava viva.
Robert Domm visitou Timor-Leste na década de 1970, então sob domínio colonial português, como marinheiro mercante num barco que fazia a ligação entre Darwin e Díli, transportando carga diversa e combustível.
Regressou em 1989, quando a Indonésia permitiu, pela primeira vez, a entrada de turistas desde 1975. Voltou em 1990, alegadamente como “turista”, mas na verdade em missão secreta para me entrevistar para a Australian Broadcasting Commission.
A jornada de Robert Domm para me encontrar exigiu uma coragem extraordinária. A sua visita foi organizada pela resistência timorense com “precisão militar”, como ele próprio recordaria mais tarde. Envolveu mais de duzentos timorenses, que o guiaram através de aldeias e postos de controlo, correndo grande risco tanto para si próprio como para os timorenses que o ajudaram.
Era um australiano humilde e gentil, que dormiu connosco no chão do Monte Bunaria, comeu connosco sob a proteção da selva e caminhou ao lado dos nossos soldados da resistência, como camarada e amigo.
A sua preocupação pelo povo timorense tocou-me profundamente.
Arriscou a vida para partilhar a nossa história. O seu relato deu reconhecimento internacional à humanidade e à determinação do nosso povo.
Após a emissão da entrevista, o exército indonésio lançou operações de grande escala nas nossas montanhas, e muitos daqueles que o ajudaram perderam a vida pela causa da nossa liberdade.
Robert continuou a apoiar Timor-Leste depois de 1990. Denunciou a ocupação e expôs a cumplicidade de governos que permaneceram em silêncio. Coescreveu, com Mark Aarons, “East Timor: A Western Made Tragedy”, que aprofundou a compreensão internacional sobre o nosso sofrimento e o nosso direito à autodeterminação.
Permaneceu amigo e defensor de Timor-Leste muito depois da restauração da independência.
Em 2015, vinte e cinco anos após a sua primeira jornada, Robert regressou a Timor-Leste para assinalar o aniversário do nosso histórico encontro. Juntos subimos novamente ao Monte Bunaria, no Município de Ainaro, para comemorar a ocasião e recordar as vidas perdidas durante a nossa luta. O local do nosso encontro foi desde então reconhecido como um local de significado histórico.
Em reconhecimento do seu contributo, Robert Domm foi condecorado com a Ordem de Timor-Leste em agosto de 2014. Esta honra refletiu a gratidão da nossa nação pelo papel que desempenhou em levar a nossa causa ao conhecimento do mundo. O contributo de Robert faz parte da história da nossa nação.
A alma de Robert repousa agora no Monte Matebian, junto das suas irmãs e irmãos timorenses.
Em nome do Governo e do povo de Timor-Leste, apresentamos as mais sentidas condolências à família, amigos e colegas de Robert Domm.
A sua coragem, integridade e sentido de justiça permanecerão para sempre na memória da nossa nação. FIM






































